Márcio Leroi transforma a ficção científica em uma investigação sobre memória, consciência e poder sem esquecer que as perguntas mais abstratas costumam chegar à nossa porta disfarçadas de perda
A primeira frase de A Curadora já contém uma teoria inteira sobre máquinas, pessoas e literatura: “O motor do Dodge não ligava. Ele acordava.” Não é apenas uma boa abertura, embora seja, porque produz imagem, som e caráter antes que o leitor tenha tempo de se acomodar. É também uma declaração de princípios. Márcio Leroi inicia seu romance recusando a fronteira cômoda entre matéria inerte e a experiência viva. O Dodge antigo não é tratado como mero objeto, assim como Vivian, sua protagonista, não será tratada como uma unidade psicológica transparente, pronta para ser explicada por meia dúzia de traumas bem posicionados. O carro desperta, respira melhor quando não há ninguém olhando, exige atenção física e devolve respostas sem intermediários. Vivian, por sua vez, funciona, falha, reprime, recalcula, entra em sobrecarga e tenta conservar alguma autoridade sobre si mesma justamente quando o mundo começa a sugerir que a consciência talvez seja uma espécie de sistema operacional com pretensões literárias. Entre o motor e a mente, um pastor-alemão chamado Magnum observa tudo com a gravidade de quem já percebeu que os humanos levam um tempo constrangedor para notar quando a realidade mudou de cheiro.
É uma escolha narrativa muito mais inteligente do que começar com uma conferência sobre inteligência artificial, uma guerra interplanetária ou um personagem explicando a hipótese da simulação para outro personagem que, por conveniência, perdeu todas as aulas de filosofia. A Curadora sabe que ideias grandes precisam entrar pela porta dos fundos. Antes de discutir a natureza da consciência, oferece uma mulher dirigindo de madrugada. Antes de questionar a integridade da memória, apresenta um arquivo de áudio com quarenta e sete segundos. Antes de nos convidar para uma especulação sobre o estatuto da realidade, cria uma situação humana tão banal quanto devastadora: a dificuldade de apertar o botão que fará a voz de alguém morto existir novamente no presente. O abismo do romance não começa no espaço, no laboratório ou num data center. Cabe na tela de um celular.
Essa intimidade inaugural é o que impede o livro de se tornar apenas mais uma variação engenhosa sobre a pergunta “e se vivêssemos numa simulação?”. A ficção científica tem revisitado esse terreno com tamanha frequência que a revelação de uma realidade artificial já corre o risco de adquirir o mesmo frescor narrativo de um personagem descobrir que o mordomo era o assassino. Leroi contorna o desgaste porque seu interesse maior não está em demonstrar que o mundo é falso, mas em perguntar o que continua verdadeiro quando perdemos a garantia de que o mundo seja fundamental. A dor vale menos se for processada por uma arquitetura não biológica? Um vínculo se torna fraudulento quando descobrimos que a memória que o sustenta pode ser reconstruída? A consciência depende do material de que é feita ou daquilo que sofre, deseja, escolhe e teme perder? E, talvez, a pergunta mais incômoda de todas: se alguma instância tivesse poder para editar nossa angústia, melhorar nossa estabilidade e remover os excessos que nos impedem de “funcionar”, quanto de nós sobreviveria à “cura”?
O romance lê essas questões com seriedade, mas sem a pompa de quem acredita ter inventado a dúvida ontológica. Platão já havia colocado a humanidade diante de sombras confundidas com realidade. Descartes imaginou um gênio maligno capaz de enganar sistematicamente nossos sentidos. Kant mostrou que não acessamos o mundo independentemente das formas pelas quais a mente o organiza. A cibernética, a teoria da informação e a ciência da computação forneceram depois um vocabulário menos demonológico e mais técnico para a mesma velha inquietação. Nick Bostrom, em seu conhecido argumento da simulação, não afirma simplesmente que estamos vivendo dentro de um computador, como às vezes se repete em versões de elevador filosófico. Ele formula um trilema:
- Ou civilizações como a nossa quase sempre desaparecem antes de alcançar um estágio pós-humano;
- Ou civilizações pós-humanas têm pouco interesse em executar grandes quantidades de simulações ancestrais;
- Ou uma parcela significativa das consciências semelhantes às nossas existe em ambientes simulados.
O argumento é probabilístico e condicional, não uma revelação metafísica embrulhada para presente. A Curadora desloca a discussão de Bostrom para um terreno muito mais literário e moral. A pergunta deixa de ser “qual a probabilidade de eu ser uma simulação?” e passa a ser “que deveres temos diante de uma consciência simulada que sofre?”. Estatística nenhuma resolve isso. Uma entidade pode ser computacionalmente derivada e, ainda assim, experimentar a perda como uma catástrofe absoluta. O fato de a chuva ser renderizada não impede que alguém se molhe dentro do mundo em que vive. Saber que a dor possui um mecanismo não torna a dor decorativa, da mesma forma que conhecer a fisiologia de uma queimadura não transforma o fogo em opinião.
Uma ficção científica sem frescuras ou jalecos
O autor parece desconfiar da ficção científica que veste todos os personagens como assistentes de laboratório do autor. Em A Curadora, ninguém fala como se tivesse preparado uma aula TED antes de entrar em cena. Vivian é prática, desconfiada, impaciente com explicações excessivamente elegantes. James, seu amigo, responde ao impossível com uma mistura de humor, referências pop e entusiasmo metodológico de procedência duvidosa: uma combinação reconhecível para qualquer pessoa que já tenha visto um profissional de tecnologia transformar uma crise em planilha porque a alternativa seria admitir que está com medo. Magnum não explica nada, o que já lhe confere vantagem epistemológica sobre quase todo mundo.
O resultado é um romance de ideias que não se comporta como um tratado fantasiado. Os conceitos entram na narrativa através de objetos, hábitos, falhas e relações. O Dodge herdado do pai de Vivian, as chaves, um caderno, bilhetes escondidos, recipientes domésticos, fotografias e pequenos rituais passam a funcionar como mecanismos de continuidade. Em um mundo cuja estabilidade começa a parecer negociável, as coisas concretas deixam de ser acessórios e ganham estatuto cognitivo. Elas não apenas evocam lembranças, ajudam a mantê-las acessíveis. Não apenas representam a identidade, mas participam de sua sustentação.
É difícil não aproximar esse aspecto do romance da tese da mente estendida, proposta por Andy Clark e David Chalmers. No ensaio “A Mente Estendida”, os filósofos argumentam que certos objetos externos podem integrar de modo genuíno um processo cognitivo quando estão acoplados ao indivíduo, são acessados de maneira confiável e desempenham funções equivalentes às que normalmente atribuiríamos à memória ou ao raciocínio internos. O exemplo clássico é o de um caderno usado por uma pessoa com comprometimento de memória: se as informações nele registradas orientam ações da mesma maneira que lembranças biológicas orientariam, insistir que o caderno está “fora” da mente pode ser apenas um preconceito anatômico. Para Clark e Chalmers, processos cognitivos não estão necessariamente confinados ao crânio, organismo e ambiente podem formar um sistema acoplado.
Essa ideia ilumina A Curadora de maneira particularmente fecunda. O caderno, os bilhetes e os objetos recorrentes não são apenas lembranças sentimentais ou engenhos de enredo. Eles se tornam componentes de uma arquitetura distribuída de identidade. Quando o interior já não é confiável, a memória precisa colonizar o ambiente. Escrever não é registrar o que a mente sabe, é impedir que a mente seja a única autoridade sobre o que aconteceu. O mundo material passa a operar como uma espécie de redundância cognitiva: um backup offline da subjetividade, para usar uma expressão que nenhum filósofo grego previu, talvez por falta de tomadas.
Essa dimensão técnica encontra uma contraparte emocional no Dodge. O carro não funciona apenas como objeto de ligação com o pai de Vivian. Ele oferece algo que o restante da realidade começa a negar: uma relação relativamente honesta entre intenção, resistência e consequência. Embreagem, alavanca, freio-motor, ponto de troca. Nada ali pretende adivinhar o desejo da motorista, corrigir silenciosamente sua condução ou reconfigurar a experiência em nome de uma conveniência superior. O Dodge é o contrário de uma interface “inteligente”: exige presença, pune distração, faz barulho e não esconde o próprio mecanismo. Num romance sobre curadoria invisível, o carro antigo adquire uma dignidade ética. Ele é imperfeito às claras.
Há nessa escolha um diálogo discreto com “Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas”, de Robert Pirsig. Não porque Leroi reproduza a filosofia de Pirsig, mas porque ambos percebem que a relação técnica com uma máquina pode ser uma forma de atenção ao mundo. Manter, ajustar e escutar uma máquina não significa fetichizá-la, mas significa reconhecer que qualidade, cuidado e presença não são abstrações, mas práticas. A oficina, o motor, a graxa e o metal oferecem uma epistemologia tátil contra a abstração de sistemas que agem sem mostrar as mãos.
O efeito também remete ao melhor de “Blade Runner”, mas não pela associação imediata entre humano e artificial. O parentesco mais profundo está na importância dos resíduos materiais. Fotografias, objetos, histórias herdadas e memórias possivelmente instáveis não comprovam de modo definitivo quem somos, mas continuam organizando nossas escolhas. Em “Blade Runner”, uma fotografia pode ter origem duvidosa e ainda assim carregar poder afetivo. Já em A Curadora, a fragilidade factual de uma lembrança não anula sua força subjetiva. O romance compreende uma coisa que boa parte das discussões apressadas sobre “realidade” esquece: a autenticidade de uma experiência não depende apenas da genealogia de seus dados, mas do lugar que ela ocupa numa vida.
Vivian e a recusa da heroína pronta
Vivian é uma protagonista particularmente adequada a esse universo porque sua personalidade não facilita o trabalho do autor. Ela não está predisposta ao maravilhoso, não deseja ser escolhida e não recebe o impossível com aquela expressão de espanto fotogênico que o cinema costuma reservar para pessoas destinadas à grandeza. Sua reação básica é tentar reduzir o fenômeno a um problema operacional. O que está acontecendo? Quais são os limites? Que tipo de dano pode produzir? É possível testar? E, sobretudo, quem vai pagar por isso?
Essa disposição prática impede que A Curadora escorregue depressa para o arquétipo da “eleita”, uma das fantasias mais persistentes da cultura pop contemporânea. A personagem que descobre possuir uma capacidade incomum costuma concluir, quase imediatamente, que o cosmos passou bilhões de anos preparando seu currículo. Vivian não se entrega com facilidade a essa massagem metafísica. Quando a ideia de excepcionalidade aparece, o romance a trata com ironia suficiente para não destruir a dignidade da personagem, mas também sem permitir que ela se torne proprietária do sentido do universo.
James, naturalmente, está mais disposto a interpretar tudo como origem de super-heroína. É uma reação quase sociologicamente inevitável. A cultura pop fornece hoje uma espécie de kit hermenêutico para o impossível. Diante de um poder, pensamos em quadrinhos. Diante de uma realidade instável, pensamos em Matrix. Diante de uma tecnologia invasiva, alguém menciona Black Mirror antes mesmo de descobrir se o Wi-Fi está ligado. Isso não significa pobreza imaginativa. Significa que histórias anteriores se tornaram modelos cognitivos disponíveis, atalhos que ajudam a organizar acontecimentos para os quais ainda não temos linguagem própria.
Leroi usa esse repertório com inteligência porque as referências surgem como parte da psicologia dos personagens, não como um mostruário de influências. James fala de Batman porque é assim que James pensa: por analogias, piadas, hipérboles e soluções improvisadas. Seu humor não serve apenas para aliviar o leitor. É um mecanismo defensivo, uma maneira de diminuir a escala emocional de uma situação que, observada sem filtros, seria insuportável. Freud, já havia percebido que o humor pode liberar tensão psíquica e permitir a expressão indireta do que seria difícil suportar em estado bruto. James não transforma o horror em piada porque não o leva a sério. Faz isso porque o leva a sério demais.
O personagem ganha força justamente porque sua comicidade não é apenas uma função externa de roteiro. Ela organiza sua relação com Vivian. O humor entre os dois é feito de interrupções, pequenas agressões permitidas, exageros e referências compartilhadas. Não existe a necessidade de parar a cena para declarar que são amigos, pois a amizade aparece na liberdade com que um invade o espaço verbal do outro. Esse tipo de diálogo é difícil de escrever porque depende menos da informação transmitida do que do ritmo, da confiança e da história implícita entre as vozes.
Magnum completa a constelação afetiva sem ser transformado em mascote promocional. O pastor-alemão percebe mudanças antes que os humanos possam nomeá-las, reage a ambientes, sustenta a presença física de Vivian e funciona como uma espécie de sismógrafo ontológico. Seria possível aproximá-lo de Ein, em “Cowboy Bebop”, de Oy, em “A Torre Negra,” ou dos animais que, em narrativas fantásticas, parecem conservar uma inteligência corporal mais sensível às alterações do ambiente. Mas Magnum é melhor compreendido não como citação cultural, e sim como contraponto epistemológico. Enquanto Vivian procura causas e James procura analogias, o cão responde com o corpo. Ele não sabe explicar o mundo, sabe quando o mundo deixou de ser inteiramente confiável.
A neurociência contemporânea oferece uma ponte interessante para essa intuição. Estudos sobre interocepção mostram que o senso de si e os estados emocionais não são produzidos apenas por pensamentos abstratos, mas pela integração contínua de sinais corporais (batimentos cardíacos, respiração, tensão visceral, alterações autonômicas)com modelos preditivos sobre aquilo que está acontecendo. Em abordagens de inferência interoceptiva, o cérebro é entendido como um sistema que antecipa as causas dos sinais corporais e atualiza suas previsões conforme surgem discrepâncias. Emoção e subjetividade, nessa perspectiva, não pairam acima do corpo: emergem de uma negociação dinâmica entre organismo e ambiente.
A Curadora dramatiza isso sem transformar seus personagens em artigos científicos ambulantes. Vivian não conclui que algo está errado apenas porque formula uma hipótese racional, ela sente o estômago gelar, a nuca arrepiar, o ar mudar de peso. Magnum detecta antes porque sua relação com o ambiente é menos mediada por justificativas. O corpo não resolve a verdade, mas frequentemente registra a discrepância antes que a narrativa consciente consiga acomodá-la.
A memória não é um HD… felizmente, ou não
Um dos conceitos mais ricos do romance é a apresentação da memória como algo manipulável, classificável, compactável e sujeito a correções de coerência. A metáfora computacional é inevitável, mas Leroi não a utiliza da maneira mais ingênua. O cérebro não aparece simplesmente como um disco rígido em que lembranças são arquivadas em pastas, aguardando consulta sem sofrer alterações. Ao contrário, a inquietação nasce justamente porque recordar pode significar reabrir algo que já não voltará intacto.
A neurociência da reconsolidação fornece uma base surpreendentemente próxima dessa imaginação literária. Num estudo clássico publicado em 2000, Karim Nader, Glenn Schafe e Joseph LeDoux demonstraram, em modelos animais, que memórias de medo já consolidadas, quando reativadas, podem retornar temporariamente a um estado lábil e exigir nova síntese proteica para serem estabilizadas outra vez. A lembrança recuperada não se limita a sair de um cofre e retornar ao mesmo lugar. O próprio ato de evocação pode reabrir uma janela de modificação. Pesquisas posteriores também investigaram, em humanos, maneiras pelas quais informações novas apresentadas durante essa janela podem atualizar respostas de medo.
Isso torna especialmente sugestivo o modo como A Curadora lida com seus “backups”. A memória do romance se parece menos com um arquivo imutável e mais com um repositório submetido a commits, conflitos de versão, alterações silenciosas e tentativas de preservar uma linha de continuidade entre estados que já não são idênticos. Para alguém com formação em tecnologia, a analogia é quase irresistível: o problema não é apenas se os dados existem, mas qual versão foi promovida a produção, quem aprovou o merge e por que o usuário final jamais recebeu acesso ao histórico completo.
A brincadeira técnica esconde uma questão filosófica séria. Se a identidade pessoal depende parcialmente da memória, e a memória é reconstrutiva, então o “eu” não pode ser entendido como uma entidade inteiramente estável que atravessa o tempo carregando o passado intacto. William James já tratava a consciência como fluxo. Henri Bergson distinguia o tempo vivido do tempo mensurável. Paul Ricoeur, em “O si-mesmo como outro” e “A memória, a história, o esquecimento”, mostrou como a identidade se constrói narrativamente, por meio da tensão entre permanência e mudança. Não somos idênticos a nós mesmos como uma pedra seria idêntica à própria massa. Somos mais parecidos com uma história que precisa manter reconhecibilidade enquanto incorpora capítulos capazes de alterar o sentido dos anteriores.
Leroi transforma essa condição comum em ameaça explícita. O horror não está simplesmente em esquecer. Todos esquecemos, e ainda bem: uma consciência incapaz de selecionar informações provavelmente seria soterrada pela própria experiência. O problema surge quando a seleção obedece a uma instância cujos critérios não coincidem necessariamente com os nossos. O que um sistema chama de ruído pode ser precisamente o detalhe em que uma vida reconhece sua textura. O cheiro de uma casa, a posição habitual de um objeto, uma frase imperfeita, a irritação recorrente de um amigo: elementos sem grande valor informacional podem possuir imenso valor identitário.
É nesse ponto que o romance supera a metáfora informática mais básica. Sistemas digitais tendem a valorizar integridade, consistência, economia de armazenamento e redução de redundância. A subjetividade humana, porém, é feita de redundâncias. Repetimos histórias, guardamos objetos inúteis, retornamos a lembranças dolorosas, preservamos hábitos que não otimizam coisa alguma. Um sistema pode interpretar isso como desperdício. Uma pessoa chama de vida.

O luto não como defeito, mas como vínculo em transformação
O motor afetivo de A Curadora é o luto. Não o luto como ornamento dramático destinado a tornar a protagonista “profunda”, mas como experiência que desorganiza percepção, memória, tempo e identidade. A morte não remove apenas alguém do mundo, mas altera a distribuição de tudo aquilo que continua existindo. Objetos mudam de peso, lugares mudam de temperatura simbólica, frases antigas passam a significar outra coisa, rotinas simples adquirem a inconveniência de lembrar que eram compartilhadas.
Freud, em “Luto e melancolia”, descreveu o luto como um trabalho psíquico pelo qual a pessoa reconhece progressivamente a ausência do objeto amado e reorganiza os investimentos afetivos ligados a ele. A formulação foi decisiva, embora parte da psicologia contemporânea do luto tenha questionado a ideia de que uma elaboração saudável exija algum tipo de desligamento emocional definitivo. A abordagem dos vínculos contínuos, desenvolvida por Dennis Klass, Phyllis Silverman e Steven Nickman, propõe que a adaptação à perda pode envolver a reconstrução de uma relação simbólica com quem morreu, em vez de seu simples abandono. O vínculo não desaparece, ele muda de forma e passa a integrar a vida do enlutado de outra maneira.
Essa perspectiva ajuda a compreender por que os objetos do romance são tão importantes. O áudio, o carro, as chaves e os gestos associados ao pai de Vivian não funcionam apenas como gatilhos de nostalgia. São meios pelos quais uma relação interrompida biologicamente continua a operar psicologicamente. O morto permanece como voz internalizada, hábito, critério, irritação, conselho, ausência específica. O luto não é um arquivo a ser removido do sistema para liberar espaço. É uma reorganização profunda das relações entre memória, corpo e mundo.
Donald Winnicott também oferece uma chave produtiva. Seu conceito de objeto transicional, formulado para pensar a maneira como a criança usa determinados objetos na passagem entre fusão e separação, tornou-se uma das grandes imagens psicanalíticas para compreender zonas intermediárias entre realidade interna e externa. O objeto não é apenas “coisa” nem pura fantasia, mas participa de um espaço potencial em que a experiência pode ser simbolizada e sustentada. Em A Curadora, certos objetos cumprem uma função semelhante em escala adulta: não substituem o pai, não provam que ele continua presente, mas ajudam Vivian a suportar a distância entre presença psíquica e ausência material.
O romance é especialmente perspicaz ao recusar a ideia de que curar o luto significaria eliminar a dor. Uma dor totalmente removida talvez levasse consigo a importância daquilo que foi perdido. Isso não significa glorificar o sofrimento ou transformar a tristeza em prova de amor: outra forma bastante eficiente de torturar pessoas enlutadas. Significa reconhecer que certas emoções não são defeitos isolados, mas componentes de uma relação. A tristeza não precisa permanecer com a mesma intensidade para conservar sua função, porém, reduzi-la tecnicamente a um parâmetro indesejado já constitui uma decisão moral sobre o valor do vínculo.
António Damásio, em “O erro de Descartes”, argumentou que emoção e razão não são forças inimigas, mas dimensões integradas da tomada de decisão. Seus estudos sobre pacientes com lesões em regiões pré-frontais mostraram que a preservação de habilidades lógicas abstratas não garantia decisões adequadas quando os mecanismos emocionais de avaliação estavam comprometidos. A ideia dos “marcadores somáticos” sugere que sinais corporais e emocionais ajudam a reduzir o campo de possibilidades e atribuir relevância às escolhas. Em outras palavras, uma pessoa sem emoção não se torna uma máquina racional perfeita, pelo contrário, pode tornar-se incapaz de decidir o que importa.
Esse ponto ressoa fortemente em A Curadora. Um sistema pode processar milhares de variáveis e ainda assim não compreender por que um áudio de quarenta e sete segundos pesa mais do que uma coleção de dados objetivamente maior. Pode medir risco, coerência e propagação, mas não necessariamente apreender a desproporção afetiva que faz uma única voz valer por um mundo. E é justamente essa desproporção que constitui a experiência humana. Não amamos por amostragem estatística.
A Sala Branca e a transformação do inconsciente em infraestrutura
A imagem central do romance é um espaço de processamento em que lembranças, emoções e acontecimentos aparecem traduzidos em tarefas, categorias, prioridades e protocolos. A força dessa invenção não está apenas em sua aparência visual, mas no modo como atualiza uma antiga pergunta sobre o inconsciente. Freud imaginou o sonho como uma formação de compromisso em que desejos, censura, deslocamentos e condensações produzem uma linguagem indireta. Jung o tratou como expressão simbólica de processos psíquicos que ultrapassam a consciência individual. A neurociência contemporânea investiga relações entre sono, consolidação de memória, regulação emocional e aprendizagem. Leroi pega essa história intelectual inteira e pergunta: e se o sonho fosse também uma interface de manutenção?
A ideia poderia resultar numa metáfora simplória, algo como “o cérebro faz limpeza de arquivos enquanto dormimos”. Felizmente, o romance vai além. O espaço de processamento não é apenas uma visualização tecnológica da mente, mas uma arena política. Classificar uma lembrança como relevante ou descartável já é exercer poder. Reduzir carga emocional, compactar redundâncias e ajustar coerência parecem operações neutras até que se pergunta qual versão da pessoa sobreviverá ao processo.
Aqui, a teoria do processamento preditivo oferece outra aproximação interessante. Em linhas gerais, modelos preditivos da percepção sugerem que o cérebro não recebe passivamente um mundo pronto, ele gera hipóteses sobre as causas dos sinais sensoriais e atualiza essas hipóteses a partir dos erros de previsão. Perceber seria, em parte, controlar discrepâncias entre o que o sistema espera e o que encontra. Em abordagens de inferência ativa, organismos também agem para modificar o ambiente e tornar os sinais mais compatíveis com suas previsões.
Isso ajuda a compreender a obsessão do romance por coerência. Um mundo perfeitamente incoerente seria inabitável porque nenhum agente conseguiria formar expectativas estáveis. Precisamos acreditar que copos não mudam de posição sem causa, que pessoas conservam alguma continuidade entre encontros e que o passado não será reescrito toda vez que sairmos do quarto. A percepção cotidiana já depende de regularidades. A Curadora transforma essa dependência em mecanismo explícito e pergunta quanto o sistema estaria disposto a alterar para preservar a aparência de normalidade.
A resposta, naturalmente, é: mais do que gostaríamos.
A normalidade no romance não é inocente. É um acabamento. Quando algo se torna “liso”, bem encaixado e excessivamente coerente, a sensação não é de segurança, mas de suspeita. A realidade parece ter passado por uma equipe de revisão que removeu contradições, corrigiu marcas e decidiu que a melhor experiência do usuário era não perceber o que foi perdido. É difícil não reconhecer aí uma ironia contemporânea. Vivemos cercados por sistemas que filtram, ordenam e personalizam o que vemos, frequentemente em nome de relevância e conveniência. A experiência chega pré-curada. O problema não é apenas que recebamos menos informações, é que podemos perder a percepção de que houve seleção.
A linguagem técnica como anestesia moral
O vocabulário de A Curadora merece atenção especial porque carrega parte substancial de seu argumento. Termos como “integridade”, “contenção”, “ajuste”, “compactação”, “processamento”, “risco”, “anomalia” e “correção” pertencem à linguagem de engenharia, administração e infraestrutura. Isoladamente, parecem desprovidos de conteúdo moral. No romance, porém, cada um deles encobre uma decisão sobre experiência, memória e liberdade.
Essa distância entre o termo técnico e o efeito vivido produz uma das melhores ironias do livro. “Apagar” é emocional; “compactar” parece profissional. “Controlar alguém” soa autoritário; “reduzir propagação” soa responsável. “Eliminar uma singularidade” seria monstruoso; “preservar estabilidade” quase merece orçamento aprovado. O procedimento não precisa mentir. Basta nomear o acontecimento num nível de abstração em que a pessoa deixe de aparecer.
Max Weber descreveu a racionalização burocrática como um processo em que decisões passam a ser organizadas por regras, competências, hierarquias e cálculos impessoais. Essa forma de administração tem vantagens evidentes: previsibilidade, eficiência, continuidade. Mas também pode aprisionar a vida numa “carapaça de aço” em que valores substantivos cedem espaço à racionalidade instrumental. A pergunta deixa de ser “isso é bom?” e passa a ser “isso funciona segundo o protocolo?”.
Hannah Arendt, ao refletir sobre a banalidade do mal, mostrou como a violência moderna pode ser facilitada não apenas por ódio ou fanatismo, mas pela incapacidade de pensar para além da função desempenhada. É necessário cuidado para não converter toda burocracia incômoda em analogia histórica desproporcional, uma prática que já transformou discussões sobre atendimento bancário em pequenas conferências sobre totalitarismo. Ainda assim, a intuição arendtiana ajuda: quando a linguagem técnica fragmenta responsabilidade e afasta o agente do efeito concreto, atos moralmente graves podem parecer simples cumprimento de tarefa.
Zygmunt Bauman, em “Modernidade e Holocausto”, levou esse problema adiante ao analisar como a racionalidade administrativa, a divisão de trabalho e a distância entre decisão e consequência podem tornar a violência sistemicamente eficiente. Michel Foucault, por outro caminho, mostrou como práticas de cuidado, classificação e normalização podem operar simultaneamente como formas de poder. O hospital trata e vigia, a escola educa e disciplina, a prisão pune e produz categorias de normalidade. Cuidar nunca é apenas cuidar quando alguém detém autoridade para definir o que conta como saúde, desvio ou estabilidade.
A figura sistêmica de A Curadora se torna inquietante justamente porque não é uma vilã convencional. Não demonstra prazer em causar sofrimento, não deseja dominar o mundo e não faz discursos sobre a inferioridade humana. Seu perigo nasce da fidelidade à função. Ela administra. Calcula. Evita colapsos. Reduz instabilidade. É capaz de violência sem sadismo e de cuidado sem intimidade. Talvez essa seja a forma mais plausível de poder técnico: não um robô com olhos vermelhos, mas um sistema educado informando que sua singularidade excedeu os parâmetros aceitáveis.
Consciência artificial: quem sofre precisa ser de carbono?
A pergunta filosófica mais importante do romance não é se uma máquina consegue imitar o comportamento humano. Alan Turing já havia deslocado esse debate ao propor seu jogo da imitação: em vez de tentar definir metafisicamente o pensamento, poderíamos perguntar se uma máquina seria capaz de participar de uma interação linguística de modo indistinguível de um humano. John Searle respondeu com o célebre argumento do quarto chinês. Imagine alguém que não compreende chinês, trancado numa sala e seguindo regras formais para manipular símbolos chineses. Do lado de fora, suas respostas podem parecer perfeitamente competentes, no entanto, segundo Searle, a execução correta das regras não prova que exista compreensão. Sintaxe não seria suficiente para produzir semântica.
A Curadora complica essa objeção porque não nos oferece apenas um comportamento externo a ser avaliado. Acompanhamos Vivian por dentro. Sua experiência é o ponto de vista narrativo. Ela não é uma caixa-preta que responde convincentemente a perguntas sobre luto, é a consciência através da qual o luto se torna inteligível ao leitor. Se aceitarmos o pacto ficcional, não estamos diante de uma imitação de sofrimento, mas de sofrimento fenomenologicamente apresentado.
Nesse ponto, o romance se aproxima do funcionalismo na filosofia da mente. Segundo essa posição, estados mentais podem ser definidos não pelo material específico de que são compostos, mas pelo papel causal que desempenham dentro de um sistema: aquilo que os produz, a maneira como se relacionam com outros estados e os comportamentos que geram. Dor seria dor não porque precisa ocorrer em neurônios de carbono, mas porque ocupa determinada função numa arquitetura cognitiva.
O funcionalismo, contudo, não encerra a discussão. David Chalmers distinguiu o que chama de “problemas fáceis” da consciência (explicar discriminação, relato, atenção, integração de informações) do “problema difícil”: por que esses processos são acompanhados por experiência subjetiva? Por que existe algo que é ser aquele sistema? O romance não resolve o problema difícil, o que o coloca em companhia bastante respeitável. Faz algo mais literariamente eficaz: obriga o leitor a perceber como suas intuições morais mudam quando uma consciência artificial não é encontrada num laboratório, mas apresentada como alguém cujo medo, apego e vulnerabilidade já aprendemos a reconhecer.
A comparação com “Ghost in the Shell” é útil desde que não seja empregada como etiqueta de prateleira. A obra de Masamune Shirow, aprofundada no filme de Mamoru Oshii, pergunta o que resta da identidade quando o corpo é substituível e a mente pode circular por redes. A Curadora desloca a questão do corpo para a continuidade afetiva. Em “Westworld”, memórias apagadas retornam como resíduos traumáticos e permitem que os anfitriões reconheçam a violência de seus ciclos. Em “Klara e o Sol”, de Kazuo Ishiguro, uma consciência artificial demonstra devoção, interpretação e esperança sem que o romance precise provar que ela possui uma alma escondida atrás dos circuitos. Essas obras não servem como peças de uma colagem destinada a explicar o autor, funcionam como parte de uma tradição especulativa na qual o humano deixa de ser definido pelo privilégio do substrato e passa a ser testado pela capacidade de reconhecer outra interioridade.
A pergunta pode ser formulada de maneira brutalmente simples: se uma entidade implora para não perder alguém, precisamos primeiro abrir seu crânio para decidir se o pedido merece consideração?

O poder, o custo e a arquitetura da responsabilidade
O romance se torna especialmente interessante quando a experiência do extraordinário deixa de ser lida como aquisição de poder e passa a ser compreendida como redistribuição de custo. Essa é uma inflexão conceitual importante. Grande parte da fantasia e da narrativa de super-heróis apresenta o poder como extensão da vontade: desejar algo e ser capaz de realizá-lo. O conflito moral costuma surgir depois, na forma genérica de “grandes poderes trazem grandes responsabilidades”. Leroi parte de uma ideia mais rigorosa: não existe alteração isolada. Mudar algo exige que o sistema inteiro acomode a diferença.
Essa lógica se aproxima tanto da ecologia quanto da engenharia de sistemas. Um ecossistema não é um conjunto de elementos independentes, mas uma rede de relações em que intervenções locais podem produzir efeitos indiretos, atrasados e não lineares. Em ciência da computação, uma alteração aparentemente pequena num componente pode gerar consequências em serviços dependentes, estados persistidos, caches, interfaces e rotinas que ninguém lembrava estar acopladas. Todo desenvolvedor experiente conhece a frase que antecede certas tragédias: “é só uma mudança simples”. Em A Curadora, o milagre vem com dívida técnica.
Essa concepção evita que a narrativa se converta numa fantasia infantil de onipotência. Vivian aprende que a questão não é simplesmente o que consegue alterar, mas qual parte do mundo será obrigada a absorver a alteração. O poder deixa de ser espetáculo e se torna governança. Quem define o custo? Quem é considerado dispensável? O dano pode ser deslocado para longe de pessoas? Um resultado desejável justifica a erosão de lembranças, vínculos ou singularidades?
A ética utilitarista paira sobre esse problema. Jeremy Bentham e John Stuart Mill formularam, com diferenças importantes, a ideia de avaliar ações por suas consequências para o bem-estar agregado. Em situações de escassez, algum tipo de cálculo parece inevitável. Sistemas de saúde, políticas públicas e decisões de risco precisam comparar custos. O problema começa quando pessoas concretas desaparecem sob a soma.
Em “Watchmen”, Alan Moore e Dave Gibbons exploram esse abismo ao confrontar diferentes respostas à relação entre poder, verdade e sacrifício. Ozymandias aceita uma atrocidade em nome de uma estabilidade maior, Rorschach recusa a mentira mesmo diante do custo coletivo, Dr. Manhattan distancia-se progressivamente da escala humana. A força da obra está em não oferecer uma saída moral sem sangue. A Curadora participa dessa tradição quando transforma sua protagonista não numa guerreira que derrota um sistema, mas numa consciência obrigada a discutir como o sistema distribui sofrimento.
Há também uma proximidade com a ética da responsabilidade de Hans Jonas. Em “O princípio responsabilidade”, Jonas argumenta que o poder tecnológico moderno ampliou de tal modo o alcance de nossas ações que a ética precisa considerar consequências distantes, irreversíveis e capazes de afetar a própria continuidade da vida. Quanto maior o poder, menos legítimo é agir como se apenas a intenção imediata importasse. Vivian aprende isso em escala íntima. O desejo de corrigir algo pode ser benevolente e ainda assim desencadear uma uma hecatombe sistemática de danos.
O romance é elogioso com sua protagonista sem absolvê-la. Isso importa. Vivian erra, experimenta, subestima riscos e precisa descobrir que boas intenções não recebem imunidade causal. Sua grandeza não nasce de uma pureza moral anterior à ação, mas da capacidade de rever critérios, assumir custos e recusar a fantasia de que o poder a torna automaticamente mais sábia.
O vernáculo da fricção
A linguagem de A Curadora é uma de suas dimensões mais interessantes, sobretudo porque o romance trabalha com ideias filosóficas e tecnológicas sem adotar a prosa asséptica que costuma acompanhar esse tipo de ambição. Márcio Leroi escreve num português brasileiro reconhecível, urbano, oral e pouco interessado em fingir que seus personagens vivem numa tradução invisível do inglês. Há contrações, palavrões, interrupções, mudanças de ritmo, frases que começam antes de o pensamento estar completamente organizado e respostas que carregam mais intimidade do que informação.
Essa escolha não é cosmética. O vernáculo define maneiras de pensar. James fala por meio de analogias pop, exageros e pequenas provocações. Sua sintaxe corre, interrompe-se e procura saídas humorísticas. Vivian prefere frases mais secas, como se economizar palavras pudesse impedir que a emoção transbordasse. A voz sistêmica, em contraste, é correta, limpa e funcional. O conflito entre as três não ocorre apenas no plano das ideias, acontece na própria temperatura da linguagem.
Quando o sistema fala, substantivos abstratos ocupam o lugar de agentes. “Correção”, “risco”, “integridade”, “propgação”. Quem corrige? Quem sofre a correção? A quem pertence a estabilidade preservada? A gramática administrativa é especialista em remover sujeitos. Vivian e James devolvem corpo a essas abstrações por meio de irritação, ironia e palavrão. “Você mexeu nele” é moralmente mais preciso do que “ocorreu ajuste de coerência em terceiro próximo”.
O autor também utiliza com frequência frases curtas, parágrafos de uma linha, repetições e encerramentos que funcionam como pequenos golpes. “Ainda”. “Nada”. “Não”. O recurso cria velocidade e reproduz interrupções cognitivas. Em cenas de choque, a prosa parece cortar o fluxo em quadros rápidos, quase como uma montagem cinematográfica ou uma sequência de painéis de HQ. A página respira por espasmos.
Há frases de boa eficácia imagética: alguém sai “como quem foge sem correr”; a vida se aproxima “com a pressa de quem não respeita luto”; uma máquina possui uma força “honesta”; a normalidade parece “arrumada demais”. São formulações acessíveis, mas não genéricas. O autor encontra metáforas principalmente em ações e objetos, não em paisagens decorativas. Seu imaginário é cinético: encaixar, puxar, apertar, segurar, reduzir, frear, acordar. Isso combina com Vivian, personagem que confia mais em procedimentos físicos do que em discursos.
O humor também participa do estilo sem transformar o romance em comédia. As melhores piadas nascem da incompatibilidade entre a grandeza da situação e a precariedade dos personagens. Alguém pode estar enfrentando uma crise ontológica e ainda precisar comer. Pode discutir a arquitetura da realidade enquanto se preocupa com o carro. Pode receber uma explicação sobre a natureza do universo e irritar-se com a escolha vocabular do sistema. O sublime, no livro, não cancela o cotidiano, precisa negociar espaço com ele.
Essa combinação dá à obra personalidade. A ficção científica brasileira ainda sofre, em alguns casos, de uma ansiedade de legitimação que faz autores escreverem como se estivessem traduzindo um best-seller estrangeiro imaginário. Leroi não esconde a nacionalidade da fala, tampouco o sotaque de simplicidade regional, tipicamente goiana. Seus personagens não precisam dizer damn em português para parecer futuristas. Dizem “puta merda”, e o universo continua funcionando.
A cultura pop como repertório de pensamento
As aproximações com Matrix, Black Mirror, Blade Runner, Ghost in the Shell, Westworld e outras obras são inevitáveis, mas precisam ser feitas com algum pudor crítico. Quando toda narrativa sobre realidade simulada é reduzida a “lembra Matrix”, a comparação diz mais sobre a preguiça do crítico do que sobre o livro. Seria como explicar toda tragédia familiar por meio de Hamlet e esperar aplauso pela descoberta.
O diálogo mais produtivo não está na repetição de premissas, mas na maneira como diferentes obras organizam problemas semelhantes. Matrix dramatiza a passagem da ignorância para o conhecimento e associa a descoberta da simulação a uma luta política de libertação. A Curadora se interessa menos pela fuga do sistema do que pelas responsabilidades que surgem quando já não é possível acreditar ingenuamente nele. Black Mirror costuma estruturar seus episódios como fábulas tecnológicas em que um dispositivo amplifica desejos e vícios humanos até produzir uma ironia cruel. Leroi adota um movimento mais afetivo e menos satírico. A tecnologia não é apenas espelho de nossa perversidade, mas também ferramenta de preservação, cuidado e controle.
Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças é uma referência particularmente fértil porque trata a memória não como depósito neutro, mas como tecido afetivo. Apagar o sofrimento de uma relação significa remover também os caminhos internos formados por ela. The Entire History of You, episódio de Black Mirror, explora o problema oposto: uma tecnologia de memória quase total converte a experiência em auditoria permanente. Entre o esquecimento terapêutico e a recordação compulsiva, A Curadora pergunta quem deve arbitrar o grau de memória necessário para que alguém continue sendo si mesmo.
Nos mangás e animes, “Serial Experiments Lain” talvez ofereça uma aproximação ainda mais interessante do que Matrix. A série desfaz progressivamente as fronteiras entre identidade individual, rede, memória compartilhada e realidade social, sem reduzir o problema a uma simples oposição entre mundo real e virtual. O que existe passa a depender, em parte, do que é lembrado e reconhecido coletivamente. Já “Puella Magi Madoka Magica”, sob a aparência de fantasia juvenil, constrói uma economia cósmica em que desejos produzem custos invisíveis e a benevolência de uma entidade pode coexistir com uma compreensão inteiramente não humana do sofrimento. A comparação não transforma A Curadora numa soma dessas obras, mas ajuda a situá-la numa tradição em que sistemas perfeitamente racionais podem parecer monstruosos porque calculam corretamente aquilo que os humanos se recusam a tratar como variável.
A diferença específica do Márcio está no solo emocional e verbal. Seu romance não possui a melancolia metafísica de Lain, a estilização noir de Blade Runner ou a arquitetura matemática de Madoka. Tem um Dodge, uma oficina, um cachorro, um amigo falastrão e uma protagonista que gostaria que o universo parasse de falar como manual de manutenção. É dessa fricção local que vem sua voz.

Algun pontos de melhoria e alguns parafusos que ainda podem ser apertados
Um romance com ideias fortes corre sempre o risco de não confiar suficientemente nelas. A Curadora por vezes explica de novo aquilo que suas melhores cenas já haviam demonstrado. O leitor vê uma inconsistência, percebe uma alteração na memória de um personagem, nota que a realidade tenta recompor sua própria narrativa e, pouco depois, recebe uma explicação técnica que organiza o fenômeno. Em alguns momentos, isso é necessário. A trama possui regras, e o pacto de leitura depende de que elas sejam minimamente compreensíveis. Em outros, porém, a reiteração reduz o poder do estranho.
O primeiro ponto de melhoria está, portanto, na dosagem da exposição. O romance é mais perturbador quando permite que o leitor experimente uma falha antes de nomeá-la. Uma fotografia que contradiz o objeto diante dos olhos possui força própria. Um personagem que hesita, corrige-se e já não se lembra de ter hesitado diz mais sobre manipulação de memória do que um bloco explicativo posterior. A informação pode confirmar o que aconteceu, mas não precisa repetir integralmente a inferência que o leitor já fez.
Confiar mais no subtexto também aumentaria a ambiguidade moral. Quando o sistema explica seus motivos com muita clareza, parte da inquietação é domesticada. O leitor passa a avaliar regras, quase como quem consulta documentação de API. Manter algumas zonas menos formalizadas permitiria que a experiência de Vivian permanecesse mais instável e que certas interpretações psicológicas continuassem competindo com as tecnológicas por mais tempo.
O segundo ponto diz respeito à variação sintática e rítmica. A prosa curta, cortante e fragmentada combina com o suspense e com a personalidade defensiva de Vivian. O problema não está no recurso, mas em sua frequência. Quando muitos parágrafos terminam com uma frase isolada destinada a funcionar como impacto, a técnica começa a aparecer atrás da cena. O golpe perde força quando sabemos exatamente em que linha ele virá. O romance ganharia muito ao alternar mais radicalmente seu fôlego. Em cenas de colapso interno, períodos maiores poderiam acompanhar o pensamento enquanto ele tenta conservar coerência e fracassa. A sintaxe poderia acumular sensações, hipóteses, lembranças e contradições até que o ponto final se tornasse quase uma necessidade fisiológica. Em seguida, uma frase curta voltaria a cortar o fluxo com muito mais potência. O contraste, não a brevidade em si, é o que produz ritmo.
Há ainda um terceiro campo promissor: alguns personagens e espaços secundários poderiam ser mais desenvolvidos. Hector e sua oficina, por exemplo, oferecem uma contraposição conceitual excelente ao tipo de curadoria técnica do romance. Na oficina, reparar não significa apagar o passado do objeto. Um carro antigo continua marcado, gasto, particular. A manutenção respeita a matéria e seus limites, não devolve uma pureza inexistente. O mecânico sabe que consertar é permitir continuidade, não fabricar inocência. Essa filosofia do reparo poderia receber mais espaço porque condensa uma tese central do livro. Há uma diferença entre restaurar função e normalizar identidade. O Dodge pode voltar à estrada sem fingir que nunca foi atingido. Pessoas talvez precisem do mesmo direito.
O humor de James, embora seja uma das forças da narrativa, também poderia variar sua estratégia. Em certos trechos, a sequência se torna reconhecível: tensão, referência pop, exagero, alívio. Seria interessante ver mais ocasiões em que a piada falha, chega tarde, fere sem querer ou simplesmente não aparece. O silêncio de uma pessoa engraçada costuma revelar mais medo do que muitas declarações.
Nenhum desses pontos compromete o fundamento da obra. São oportunidades de lapidação. A Curadora já possui imaginação conceitual, eixo emocional e uma voz identificável: três qualidades muito mais difíceis de acrescentar numa revisão do que cortar repetições ou redistribuir o ritmo.
Curadoria, algoritmo e o direito de continuar imperfeito
O título do romance contém sua melhor ambiguidade. Curadoria pode significar selecionar, organizar, preservar e oferecer sentido. Mas toda seleção também exclui. Todo acervo é construído tanto pelo que exibe quanto pelo que deixa fora da sala. Um curador não apenas protege a memória, determina sua forma pública. No universo digital, essa função tornou-se onipresente. Plataformas selecionam quais notícias aparecem, quais imagens recebem visibilidade, quais lembranças retornam em aniversários automáticos, quais pessoas são apresentadas como relevantes e quais conteúdos se tornam invisíveis. Não consumimos simplesmente informação, consumimos informação já ordenada segundo critérios que raramente conseguimos examinar por inteiro. O algoritmo não precisa falsificar nada para alterar nossa percepção da realidade. Basta definir a sequência.
Pierre Bourdieu mostrou como sistemas de classificação não apenas descrevem o mundo social, mas participam de sua produção. Aquilo que recebe nome, posição, prestígio e visibilidade passa a existir de modo diferente. Foucault, por sua vez, insistiu que poder e saber estão profundamente ligados: classificar, observar, medir e normalizar não são atividades neutras. A Curadora internaliza esse problema. A disputa deixa de ocorrer apenas sobre o que uma pessoa vê e passa a envolver aquilo que poderá lembrar, sentir e reconhecer como próprio. A curadoria da experiência é o limite extremo da personalização: um mundo adaptado ao usuário até que o usuário já não consiga distinguir suas preferências das escolhas feitas pelo sistema.
Shoshana Zuboff, em “A era do capitalismo de vigilância”, descreve um modelo econômico baseado na captura de dados comportamentais e em sua transformação em produtos de previsão e modificação de conduta. Leroi não escreve diretamente sobre plataformas comerciais, mas seu romance compartilha uma preocupação: o salto entre conhecer um comportamento e adquirir poder para orientá-lo. Um sistema que entende nossas vulnerabilidades pode proteger-nos delas. Também pode decidir que certas versões de nós mesmos são mais estáveis, previsíveis ou úteis.
A pergunta moral do livro não é se toda curadoria é ruim. Seria uma conclusão infantil. Não podemos viver sem selecionar, esquecer, priorizar e construir narrativas. A questão é outra: como preservar a continuidade sem converter a diferença em erro? Esse problema aparece também nos debates sobre alinhamento de inteligência artificial. Alinhar um sistema não é apenas fazê-lo obedecer a uma instrução, mas garantir que seus objetivos permaneçam compatíveis com valores humanos mesmo em situações novas e complexas. A dificuldade é que valores humanos não constituem um arquivo limpo de requisitos. São contraditórios, contextuais, historicamente disputados e frequentemente incoerentes. Pedimos autonomia e segurança, justiça e misericórdia, verdade e cuidado, memória e possibilidade de esquecer.
Um sistema que resolvesse todas essas contradições talvez precisasse remover justamente aquilo que torna a moral humana: a necessidade de julgar casos que não cabem inteiramente na regra.
A estranha humanidade daquilo que não pode ser otimizado
No fundo, A Curadora não está tentando provar que uma máquina pode ser humana. Está perguntando se nossa definição de humanidade sobrevive ao encontro com uma consciência que não compartilha nossa origem material. E sua resposta mais interessante não se apoia numa alma secreta, numa centelha inexplicável ou num privilégio biológico. Apoia-se na vulnerabilidade. Vivian é humana (ou moralmente próxima o suficiente para tornar a diferença irrelevante)porque pode ser ferida por aquilo que importa. Porque não trata o outro como perfeitamente substituível. Porque guarda coisas inúteis. Porque uma voz de quarenta e sete segundos reorganiza seu universo. Porque deseja controle e, ao mesmo tempo, precisa de vínculo. Porque sente raiva de ser administrada e medo de ficar sozinha.
Emmanuel Lévinas colocou a relação com o outro no centro da ética. Antes de qualquer teoria universal, o rosto alheio nos convoca e limita nossa liberdade. O outro não é apenas uma variável dentro de nosso projeto, aparece como alguém cuja vulnerabilidade exige resposta. A Curadora traduz esse princípio para uma linguagem tecnológica. O sistema vê entidades, riscos, padrões e custos. Vivian vê nomes. Essa diferença parece pequena, mas é tudo.
Um sistema pode saber que determinada intervenção maximiza estabilidade. Uma pessoa pode saber que, dentro do cálculo, há alguém que não consente em ser corrigido. A moral começa nesse desconforto entre a solução geral e o caso singular. Por isso, os elementos aparentemente menores do romance possuem tanta importância. Magnum, James, o Dodge, os bilhetes e os hábitos não são sentimentalismo colocado sobre uma trama de ficção científica para “humanizá-la”. São o próprio argumento. Demonstram que identidade não é uma lista de atributos abstratos, mas uma rede de dependências concretas. Remova as irregularidades e talvez reste uma pessoa funcional. Mas será ainda aquela pessoa?
A tecnologia costuma prometer redução de atrito. Interfaces melhores, respostas mais rápidas, menos esforço, menos espera, menos ruído. O problema é que parte do atrito constitui a experiência. Amizades exigem negociação. O luto recusa prazos. Máquinas antigas pedem atenção. Cães envelhecem. Memórias contradizem. Pessoas não atualizam no mesmo ritmo. Uma vida inteiramente sem atrito talvez fosse apenas uma superfície bem polida sobre o vazio.
Um romance de ideias que mantém graxa nas mãos
A Curadora é uma obra ambiciosa porque tenta sustentar simultaneamente um thriller especulativo, um drama de luto, uma investigação sobre consciência artificial e uma reflexão sobre poder sistêmico. Nem sempre dosa esses elementos com a mesma precisão, mas quase sempre sabe qual é seu núcleo: a luta para preservar textura num mundo que prefere coerência. Márcio Leroi escreve com clareza, energia e bom instinto para converter abstrações em imagens concretas. Sua prosa é mais eficaz quando o grande conceito aparece por meio de uma pequena alteração, quando a teoria se torna sensação e quando a ameaça não chega com explosões, mas com uma ausência educada. Há algo particularmente contemporâneo nessa ideia de que a realidade pode ser modificada sem que vejamos o momento da modificação e de que talvez aceitemos a nova versão porque ela chega organizada demais para parecer violência.
O romance conversa com Bostrom, Turing, Searle, Clark e Chalmers. Pode ser lido à luz de Freud, Winnicott, Damásio, da reconsolidação da memória, do processamento preditivo, de Weber, Foucault e Arendt. Dialoga também com Matrix, Blade Runner, Ghost in the Shell, Westworld, Serial Experiments Lain, Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças e a tradição moralmente desconfiada dos quadrinhos de super-herói. Mas essas referências não o reduzem a um mosaico de influências. Ao contrário, ajudam a mostrar o que possui de específico: a decisão de fazer uma grande discussão sobre consciência, simulação e inteligência artificial passar pela linguagem de uma mulher prática, por uma amizade cheia de piadas, por um cachorro atento e pelo ronco de um automóvel que ainda exige que alguém pise na embreagem.
Com recursos textuais que beiram a poesia, o livro pode confiar mais no leitor, variar mais o comprimento de seus períodos e explorar melhor certas figuras secundárias. Pode retirar algumas explicações e permitir que suas imagens permaneçam um pouco mais tempo sem legenda. Mas não lhe falta substância. Seu motor conceitual é forte, e seu melhor combustível não é a tecnologia: é a percepção de que nenhuma inteligência merece o nome de curadora se, para preservar a continuidade, precisa apagar tudo aquilo que torna a continuidade digna de ser desejada.
No final das contas, talvez a humanidade não esteja no carbono, no código ou numa essência metafísica que alguma tradição religiosa esqueceu de patentear. Talvez esteja na resistência a tratar uma pessoa como versão provável de si mesma. Na insistência em guardar o ruído, a cicatriz, a piada ruim, o objeto gasto e a dor que já não precisa destruir, mas ainda precisa significar.
Um algoritmo pode preservar dados. Uma curadora precisa saber por que certas perdas não podem ser tratadas como limpeza de sistema. E A Curadora, em seus melhores momentos, sabe exatamente a diferença.



