Provavelmente, ainda que seja um ávido leitor, você nunca ouviu falar de Rafael Abalos, o que é um erro que deve procurar corrigir imediatamente. O autor de uma obra que chegou a ser comparada com a opus magnum de Umberto Eco, “O Nome da Rosa” (1980), não deve ser ignorado, tampouco esquecido. E a comparação não é gratuita: assim como Eco construiu seu romance policial medieval sobre as ruínas simbólicas de Aristóteles e dos manuscritos proibidos de uma abadia beneditina, Abalos ergue o seu sobre os pilares igualmente sedutores da alquimia e da Ordem do Templo.
Advogado e docente, Abalos deu forma a esse seu terceiro romance após uma viagem e longas conversas com amigos que também revelavam paixão inconteste pelo medievo e suas fantásticas histórias e mitos. Grimpow e o Caminho Invisível — também chamado de Grimpow, o Eleito dos Templários em algumas edições — é um romance que se erige sob mistérios e lendas fascinantes. Não um romance qualquer, eu já aviso.
Um enredo acima da média, apesar de parecer mais do mesmo
Grimpow é uma criança — ou adolescente? — proscrita que vive à companhia de seu amigo salteador Dúrlib e que, durante uma caçada para conseguir alimento, encontra o corpo morto de um ginete estirado sobre a neve. Antes de evanescer diante dos olhos assustados dos dois amigos, como brumas diante do nascer do sol, o cavaleiro morto deixa para eles uma pedra fantástica, um selo, uma adaga, moedas de ouro e uma carta cifrada. Este é o mote para as aventuras e tragédias que Grimpow enfrentará para desvendar a enigmática mensagem, para entender a magia por trás da chave dos mistérios que é a pedra que agora carrega no peito e para encontrar o Caminho Invisível e o segredo dos sábios.
A premissa remete, inevitavelmente, ao Parsifal medieval — o jovem ingênuo que, por acidente do destino, se vê enredado numa demanda maior do que si mesmo — e há ecos claros da Demanda do Santo Graal na jornada de Grimpow: a busca por um objeto de poder oculto, guardado por uma ordem secreta, permeada por provações morais e intelectuais. Abalos, no entanto, retrabalha esse arquétipo sem se render ao lugar-comum. Diferentemente do herói tolkieniano — que cresce em poder físico e moral para enfrentar o mal — Grimpow cresce em inteligência e conhecimento, o que torna sua trajetória mais socrática do que épica.
Embora o protagonista seja apenas um menino, a trama está completamente incólume à ingenuidade e sutilezas que se esperaria para um herói mirim. Se você torcer o volume de páginas, é perigoso escorrer sangue do livro. Grimpow vê coisas que fariam com que qualquer criança, adolescente — e mesmo um adulto — de nossa asséptica realidade entrasse num profundo TEPT, mas que não o debilitam ao ponto de fazer com que abandone a missão que o adotara. Com um assombroso poder dedutivo, ele fica ainda mais arguto após tomar posse da pedra, a qual parece “iluminar” sua inteligência, numa clara alusão ao lapis philosophorum da tradição alquímica, a pedra filosofal que não transforma apenas metais vis em ouro, mas também o espírito do portador.
Personagens memoráveis
Outros personagens fazem com que você se apaixone completamente pela trama. Dúrlib, o “tutor” proscrito que inicia as aventuras com Grimpow, tem algo do Sancho Pança cervantino, a lealdade rústica e genuína que contrasta com o idealismo do companheiro mais jovem. Os monges da Abadia de Brínkdum, cada qual com uma importância fundamental para o desdobramento da história, lembram a galeria de eclesiásticos que povoam O Nome da Rosa: personagens que guardam o conhecimento como quem guarda uma chama, com devoção e com medo de que ela queime.
Salietti de Estaglia, cavaleiro que se propõe a seguir Grimpow em sua jornada e que guarda um passado profundamente ligado ao presente do menino, carrega aquele tipo de melancolia nobre que encontramos em figuras como Lancelot, o guerreiro que serviu a causas maiores do que si mesmo e carrega o peso disso. Já Búlvar de Góztell, inquisidor sanguinário que faz o escarcéu para conseguir o segredo dos sábios a mando do Papa — aliando-se ao Barão Figüeltach de Vokko e ao Rei da França —, é um antagonista que rivaliza com o Jorge de Burgos de Eco em implacabilidade, com a diferença de que Búlvar representa não o fanatismo intelectual, mas o fanatismo do poder.
Além deles, temos a Weienell, mulher de fascinante beleza, filha de um dos sábios e importante aliada às traduções simbólicas que Grimpow tem de fazer nos “finalmentes” do enredo. Ela ocupa, na estrutura narrativa, um papel próximo ao que Camille Paglia chamaria de femme fatale redimida: a mulher que detém um saber proibido e o usa não para destruir, mas para iluminar.
Uma fantasia embebida pelo puro suco da semiótica e pelo uso impecável de figuras de linguagem
Assim como O Nome da Rosa, Grimpow conta com um vasto repertório semiótico que ajuda a construir os enigmas e códigos que perpassam toda a história, desde os textos criptografados, passando pelos puzzles que os heróis encontram pela frente, até os símbolos que norteiam o Caminho Invisível e a sociedade secreta dos sábios, a Ouroboros. O próprio nome da sociedade é um signo poderoso: a Ouroboros, a serpente que devora a própria cauda, é um dos símbolos mais antigos da humanidade, presente desde o Egito faraônico e sistematizado pelos alquimistas medievais para representar a eternidade, o ciclo do conhecimento que jamais se encerra. Abalos não escolheu esse nome por acidente.
Todo ponto decisivo da história é cerceado por quebra-cabeças linguísticos e lógicos muito bem arquitetados, que lembram os enigmas propostos por Raymond Lull e pelos cabalistas medievais, a ideia de que a linguagem não é apenas um veículo de comunicação, mas um mapa do cosmos. Em termos peirceianos, os signos em Grimpow funcionam nos três registros: o ícone, o índice e o símbolo se entrelaçam de tal forma que o leitor, inevitavelmente, se vê compelido a ajudar os protagonistas a encontrarem a solução de cada desafio.
Não bastasse a bela estruturação criada por Abalos para dar fluidez ao saboroso fado do herói, a obra goza de uma maravilhosa coleção de figuras de linguagem que a fazem parecer uma verdadeira odisseia poética. Um texto banhado no ouro das metáforas, o que é, por si só, uma metalinguagem elegante numa história sobre alquimia.
Definitivamente, diferente e apaixonante
Apesar de lembrar a narrativa dos contos de cavalaria — de Chrétien de Troyes a Wolfram von Eschenbach —, a obra possui a dinâmica de romances modernos. Chega a ser romântico, mas de forma alguma pode ser considerado pedante ou melífluo demais. Ao contrário da maioria dos épicos que temos visto serem lançados atualmente, Grimpow abre mão da receita dragão/trono/guerra/amoricos para nos fazer refletir sobre a importância do conhecimento e o perigo da religiosidade cega (um tema que ecoa tanto nas Epistulae morales de Sêneca quanto no projeto iluminista que viria séculos depois). Tanto que, muitas das vezes, o protagonismo se transfere do personagem para o tema ou a trama.
Não é mais um livro sobre cavaleiros, donzelas, dragões e a noção mística de magia, mas um elogio à magia que é deter o conhecimento, no melhor espírito do Sapere aude kantiano, o convite à coragem de pensar por conta própria. A tradução de Luís Carlos Cabral é fabulosa, conseguindo manter a beleza e os signos presentes na versão original, em espanhol. Li a primeira edição, pela Ediouro, cuja capa é a mais bonita na minha opinião.
É bem provável que você, que sofre da Síndrome de Westeros, não se interesse muito por um romance menos afortunado midiaticamente. Garanto, porém, que ler Grimpow te trará uma nova luz acerca deste tipo de literatura e, talvez, te faça perceber que o medievo que você tanto ama nunca foi sobre tronos e batalhas, mas sobre o que os homens foram capazes de buscar, esconder e morrer para preservar: o conhecimento.



