Outubro, insólito senhor dos calendários,
Transgrediu a ordinária sucessão;
Foi épica a discrição de um instante,
Em que o acaso usurpou a duração.
O negro sobre a pele era um eclipse,
E o claro já não soube renascer;
Em dois castanhos de terrível lucidez,
A noite teve olhos para ver.

Cabelos ondulavam como mares
Que o firmamento tentava aprisionar;
Um ouro frio, em cítrica amargura,
Trouxe ao silêncio a vertigem de falar.
Não era doce o âmbar das conversas,
Nem dócil o que havia de prazer;
O pensamento, em lâmina e ironia,
Tinha a audácia carnal de conhecer.

Um cearense falou de um certo John,
Do direito de escolher por onde andar;
A felicidade era uma arma quente,
E até o sol perdeu o direito de apontar.
Era aguda a alegria das palavras,
Cada certeza exposta à dissecação;
Havia no desejo uma consciência,
E na ironia, um modo de paixão.

Na pele, tatuagens eram evangelhos
De uma mitologia sem altar;
E as mãos, capazes de escrever em carne,
Faziam o próprio vazio sangrar.
No pontilhismo, um cosmos se repartia
Sem que a figura viesse a se perder;
Mil pontos conspiravam no silêncio
Por algo que só a distância faz nascer.

Depois, num velho templo de guitarras,
O próprio nome blasfemava no portal;
A música feriu a carne da madrugada,
E o beijo foi princípio e funeral.
Ali, o fim chegou antes da origem,
Sem dar à eternidade ocasião;
Um só instante, dividido em dois extremos,
Fez do corpo uma breve contradição.

Escreveu-se um adeus em folha branca,
Como se a tinta governasse o temporal;
Mas o silêncio, em letras manuscritas,
Apenas disfarçava o seu final.
Um canto da Bahia, em voz alheia,
Expôs o que faltava aprender;
A lição que jamais fora ensinada
Era a impossível ciência de esquecer.

Passaram dois, talvez três, outubros,
Sem que um relógio ousasse os decifrar;
A memória, astuta arquivista do indizível,
Guardou o que ninguém mandou guardar.
No corpo, certas marcas são visíveis,
Outras se escrevem antes de existir;
O pontilhismo conhece essa ironia:
Só a distância faz a forma emergir.

Eis que uma voz transgride o próprio exílio,
Sem pedir permissão para voltar;
A palavra, outrora exangue e proscrita,
Reaprende a nudez de ressoar.
Vi no intervalo uma insólita evidência:
Nem tudo que se perde deixa de viver;
E a vitória, despojada de conquista,
É não ter nada a exigir nem a vencer.

Há uma letra que antecede duas vidas,
Como o prólogo de um verbo por surgir;
E a sílaba, no espelho repetida,
Deixa de apenas ver e aprende a existir.
Se a noite foi um ponto em carne viva,
E a ausência, o seu modo de durar;
Talvez o tempo escreva em duplo início
O que nenhum adeus soube apagar.